25.7.06

GOSTAR DE HÓQUEI (2) - As noites da rádio

Parece-me um interessante exercício mental, procurar entender porque motivo gostamos de algo. Além de nos proporcionar um maior auto-conhecimento, oferece-nos também uma sólida base de sabedoria face ao próprio objecto da nossa admiração ou paixão, bem como uma enriquecedora sugestão interpretativa acerca das eventuais motivações de todos os outros com quem partilhamos esse gosto. Um dos passos essenciais para determinar o porquê, é sem dúvida recordar o quando.
Não me é difícil recordar quando e porque motivo comecei a gostar de hóquei em patins.
Fruto de influência paterna, a minha primeira e mais consistente paixão desportiva foi, como na maioria das pessoas, o futebol. Desde muito tenra idade me senti fascinado pelo colorido das equipas, dos equipamentos, dos relvados, ainda que numa época em que não existia TV a cores, e apenas nalgumas revistas era possível apreciar a estética resultante dos contrastes entre equipamentos e relvados, entre bancadas e jogadores. Outro dos factores que me tocou foi a competitividade, os números, os golos, os minutos e as pontuações, provavelmente fruto da aprendizagem escolar que simultaneamente me ensinava as somas, subtracções e, mais tarde, divisões e multiplicações.
Á boleia do futebol, das revistas (com destaque particular para a “Equipa”, e também o “Golo”, as “Selecções Desportivas” e todas as suas edições especiais) e dos jornais, fui-me apercebendo de uma realidade desportiva muito para além do próprio desporto-rei. Carlos Lopes e Joaquim Agostinho eram figuras de topo na altura, mas foram os desportos com bola os primeiros a chamar a minha atenção, por analogia com a paixão futebolística já bem incrustada em mim.
O hóquei em patins, com as suas balizinhas pequeninas, com a sua bola de tamanho infantil, disputado num ringue de dimensões reduzidas, mas sem poupanças nos golos, com Benficas-Sportings e Benficas-Portos, selecção nacional, goleadores, guarda-redes, remates e defesas, parecia aos meus olhos um verdadeiro futebolzinho em miniatura (não existia futsal na altura). A falta do colorido da relva era suprida pela estética dos patins e das enormes caneleiras, para além dos pitorescos equipamentos e capacetes dos guarda-redes. Para além de tudo isto, o factor radiofónico reforçava a espectacularidade do hóquei, e permitia acompanhá-lo ao pormenor, em momentos em que o futebol estava ausente, designadamente a meio da semana pela noite, quando se disputavam a maioria dos jogos – o que também se explica porque muitos dos estádios de futebol não dispunham ainda de iluminação, enquanto que todos os pavilhões já a tinham. Sintonizando a Rádio Comercial (como são diferentes os tempos...), pela voz de Abel Figueiredo ou Fernando Correia (mais tarde também Fernando Emílio), ouvia os Benficas-Sporting os Benficas-Alenqueres, os Benficas-Belenenses ou os Benficas-Paços de Arcos para o torneio de abertura, com a mesma emoção com que vivia a jornada futebolística do fim de semana.
O hóquei foi sempre um desporto bastante talhado para a rádio. Proporcionava relatos vibrantes, com muitos golos e jogadas rápidas de ataque e contra-ataque, que nas vozes de locutores como os que referi, ganhavam uma emotividade que talvez nem o futebol conseguisse enquanto espectáculo radiofónico. Uma das coisas que mais me dói enquanto amante do hóquei, é a forma como a rádio o despreza nos dias de hoje, não percebendo que podia ter nele uma boa saída face a crescente televisionização do futebol, enquanto principal desporto de massas.
Em 1979 não era assim. Nem o futebol nem o hóquei eram televisionados, e ambos eram tratados quase da mesma forma ao nível da rádio, sendo pois através desta que fui acompanhando a modalidade, e cimentando o gosto por ela.

3 comentários:

  1. Anónimo8.8.06

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  2. Anónimo12.8.06

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  3. Anónimo17.8.06

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